“Fim do Contrato”

Mudança de endereço: pessoas, mudei o endereço do blog! A partir de agora será: https://registromedico.wordpress.com. Todo o conteúdo desse aqui está lá também! Em breve esse será desativado!


Seu João. Moça sem nome. Sr. Alberto.

———————————————-

Seu João estava lendo seu jornal, tomando seu café e fazendo carinho no seu cachorro, amigo há muitos anos. Pegou seu maço de cigarros e viu que estava vazio. Decidiu então ir à padaria comprar mais um e comprar pão e leite para fazer o café da manhã para sua esposa, companheira fiel de longa data.

A Moça sem nome não teve tempo de dizer o seu nome. Estava muito ocupada resolvendo seus problemas da última hora, pensando no trabalho da faculdade que estava atrasado e resolvendo como faria para pagar a conta de luz vencida. Brigou com o namorado no dia anterior, e decidiu que nesse dia não ligaria para ele, já que sempre era ela a responsável em reatar o relacionamento.

Seu Alberto saiu de casa de manhã com pressa, tinha que chegar mais cedo no serviço. Separado há algum tempo, tinha que encontrar a ex-esposa no almoço para acertar os últimos detalhes do divórcio. Na realidade tinha vontade de dizer que sentia muito por tudo isso e que se pudesse, voltaria no tempo e faria tudo diferente. Nesse dia não pensou em ligar para seu único filho, já adolescente, porque iria vê-lo no fim de semana mesmo e não queria importuná-lo logo numa terça-feira.

———————————————-

Seu João comprou seu cigarro, o pão, o leite e um pão de mel para sua amada, já que não se esquecera nunca do dia, muitos anos atrás, em que deu o mesmo doce para a esposa e a chamou para sair pela primeira vez, quando ainda eram apenas vizinhos. Estava planejando fazer uma surpresa para ela, já que na semana seguinte fariam 45 anos de casados, e além disso, tinha que comprar um presente para seu cachorrinho, que havia comprado 12 anos atrás e dado de presente para a esposa no aniversário de casamento.

O Moça sem nome não se lembrou de como foi parar naquele hospital. Aliás, nem sabia onde estava. Enfermeiros e estudantes em sua volta, e um médico chamando sua atenção, perguntando seu nome e se sabia em que lugar ela estava. Moveu os lábios e a lingua, mas a voz não saiu. Não sabia o que estava acontecendo e começou a ficar nervosa. O médico disse então para ela ficar calma porque estava segura, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Talvez essa frase não a fez acalmar-se, já que momentos depois tudo ficou preto e o som a sua volta ficava cada vez mais fraco.

Seu Alberto tomou sua decisão de vida. O ultimato. Não poderia deixar acabar assim o seu casamento, mesmo com todos os problemas de discussão com a esposa e de relacionamento com o filho. Pensou de todas as maneiras em como faria para reconquistar a esposa e o filho, e ai teve uma ideia brilhante. Levaria-os para a mesma praia que foram 13 anos antes, local que segundo a esposa fora a melhor viagem que fizera, e que segundo o filho, era a lembrança mais feliz de sua infância. Foi até a agência de turismo e fechou negócio. Saiu e foi para a rua, andou até a esquina e esperou o farol fechar para atravesar.

———————————————-

Seu João estava voltando para casa quando começou a sentir uma dor muito forte no peito. Não sabia o que estava acontecendo, e temeu o pior: estava infartando! Parou na banca de jornal e conseguiu balbuciar para o jornaleiro e amigo antigo: Chama uma ambulância… meu coração! Essa foi a última frase que disse, um pouco mais trágica do que Seu João esperava. Deitou-se no chão em frente a banca e rezou.

A Moça sem nome sentiu que estava se movendo. Percebeu então que estava em uma maca, indo em direção à saída do hospital, e presumivelmente com pressa. Não estava sentindo dor nem nada do tipo, e sua vontade era gritar para que parassem com isso e tirassem o tapa-olho que colocaram nela, porque estava cansada de ficar vendo tudo preto. Ouviu então o paramédico dizendo: vamos até o PS do Instituto Central, o mais rápido que der.

Seu Alberto ouviu uma buzinada alta e olhou em direção à origem do som. A única coisa que viu foi uma moto caída no chão e um motoqueiro jogado na guia da calçada. Não prestou atenção no carro que havia batido na moto, e agora estava vindo em sua direção, sem controle. Não sentiu dor. Não sentiu nada. Quando recobrou os sentidos, estava no helicóptero da Polícia Militar, com colar cervical e a cabeça enfaixada. Só conseguiu perguntar para onde estava indo, e ouviu como resposta: Ao HC, o senhor vai ficar bem. Pediu então para o paramédico ligar para sua ex-esposa, mas falou para tentar não deixá-la preocupada, porque no final das contas, já havia dado muita dor de cabeça na mulher.

———————————————-

Seu João chegou no PS do HC e já pensou que levaria os choques para o coração voltar ao normal. Foi então que ouviu o paramédico passando o caso para a residente em plantão: Ele tem DPOC, tá com hipoxemia grave. Não entendeu o que isso queria dizer, mas pensou que estaria tudo bem. Mas não foi isso que aconteceu. Começou a sentir muita dor em todo o corpo, e percebeu que tinha algo errado. Foi ai que ouviu aquele apitinho das máquinas que ouvia quando assistia os filmes de médicos. Pensou então na esposa, no cachorro, no pão de mel. Conclui que não os veria mais, e chorou sem lágrimas. Não conseguiria fazer a surpresa para a esposa, não faria mais carinho no cachorro. E pensar que saira de casa sem contar para a mulher, já que ia fazer o café para surpreendê-la, como fazia quase todos os dias. Seu último pensamento foi ela, e talvez isso tenha feito as coisas não serem tão ruins assim, afinal…

O Moça sem nome estava se sentindo cada vez mais fraca. Quando sentiu a picada no braço e alguém pressionando o seu tórax, percebeu que estava tendo uma parada cardíaca. Entrou em desespero, mas não conseguia se mover, nem abrir os olhos. Foi ai que se lembrou do namorado, e viu como fora estúpida em não ter ligado para ele, dizer que o amava e que iriam superar aquilo, já que não conseguiam viver um longe do outro. Daria tudo para ter uma oportunidade de passar mais um dia com ele, senti-lo por perto e saber que pensaria nela em todos os dias de sua vida, assim como ela estava pensando nele no último dia de sua vida. Foi ai que perdeu a consciência, e não mais voltou…

Seu Alberto chegou ao PS quase inconsciente. Só não tinha desmaiado ainda porque tinha algo em sua mente que a mantinha acesa, num esforço absurdo para lutar e não abandonar a vida. Foi ai que percebeu daonde vinha essa força: era os rostos de sua esposa e seu filho, que não saiam da sua cabeça. Como queria beijá-la e pedir desculpa por todo o mal que tinha feito pra ela nos últimos anos. Não conseguia nem medir o quanto tinha vontade de abraçar seu filho, dizer que ele era a melhor coisa que tinha feito até hoje, e que o amava muito e tinha orgulho dele. Foi então que viu aquela praia, com sua esposa alguns anos mais jovem, e seu filho no colo. Aquela imagem ficou gravada em sua mente até o fim, quando não mais resistiu e se foi…

———————————————-

Ontem a noite eu tive mais um Plantão da Neurocirurgia. Mas dessa vez eu e meu amigo Gabriel ficamos andando lá pelo PS e fomos para a Sala de Emergência. Vi três pessoas morrendo… as primeiras. Não sei ainda o que achei de tudo isso, e realmente não parei para pensar no que aconteceu.

Tem gente que vai ler e achar que é bobagem, que vou ver monte de gente morrendo mesmo e estou com frescura agora. Sei lá, pode até ser. Mas espero realmente que até meu último dia exercendo a profissão médica eu me comova assim diante dessa situação.

Acho que foi uma das coisas mais interessantes que passei até hoje na faculdade. Foi a única coisa que me deixou sem o que pensar… e acho que vai ser difícil esquecer do dia 17 de agosto de 2010, dia que três pessoas que nunca vi na vida morreram na minha frente, deixando pra trás aquela sensação estranha que a gente tem quando alguma coisa devia ter sido feita, mas você não sabia o quê, nem como.

Hoje de manhã eu tive aula de Semiologia/Propedêutica, e ai nós ficamos treinando os métodos quantitativos e qualitativos, que é pressão, frequência cardíaca, etc etc, nos pacientes da Enfermaria da Clínica Médica. Foi legal! Eram pacientes muito legais (só tinha um bem bravo lá) e cooperativos, na sua maioria mais de 60 anos de idade.

Teve um paciente que me chamou a atenção. Não sei bem ao certo a história dele, mas no pouco contato que tivemos pude entender o que se passava: ele estava com suspeita de câncer no pulmão, e estava lá internado esperando sair o resultado da biópsia que fizera na sexta-feira passada. Não consigo imaginar como deve ser essa situação… ter que ficar esperando, internado, um resultado que pode mudar sua vida completamente.

Mas enfim, ele falou coisas interessantes, mas a que mais marcou foi:

Bom, seja o que Ele quiser. Se ele achar que meu contrato chegou ao fim, eu vou. Mas eu não queria, já que tenho que ficar aqui pra cuidar daquela que cuida de mim há 45 anos (se referia à esposa que estava junto dele no quarto). Mas se for pra ir, eu vou…

Bom… a gente nunca sabe mesmo quando nosso contrato vai acabar. Mas enquanto isso, vamos vivendo, não é mesmo?

(Só não consigo parar de imaginar na senhora esperando o marido voltar da padaria, do cachorrinho sentado em frente a porta esperando ela abrir, do namorado que nunca mais vai brigar sem motivo, do nome da moça, que nunca vou saber, do que a esposa e o filho diriam se descobrissem que o moço queria fazer aquela viagem de novo…

Foram três vidas que se foram, mesmo que tenham sido criadas por mim. Espero que não tenha sido tão trágico assim…)

Anúncios

23 comentários sobre ““Fim do Contrato”

  1. Nossa, Deco!
    Muito bom! E olha que eu não costumo gostar de posts dramáticos!

    Tenso isso, gente morrendo. Mas é a vida. =/

    -hug

  2. Nossa Dé!

    Não sei nem o que dizer!
    acho que não faço idéia de como é ver essas coisas!

    é muito bom ver o médico que meu amigo-irmão vai ser!
    e me orgulho muito disso!

    Sem mais

    Abração

  3. Poxa, eu sabia que isso tinha te abalado, porque se isso fosse comigo, acho que passaria uns dias incrédula, questionando fés, avaliando minha vida, pensando na vida deles, imaginando o que vai ser daqui pra frente, a nossa profissão, essas pessoas, nossos entes queridos, aqueles que se foram, aqueles que não foram ainda. Bah, acho isso horrível.

    E fico feliz que voce tenha se comovido e gastado um tempinho pra notar e relembrar essas pessoas.
    Talvez o contrato delas tenha acabado, mas existia uma cláusula nele dizendo que todas as 3 iriam te ajudar a ser um grande médico 🙂

    *hug*

  4. Eu não sou namorada… Mas eu sou filha e sou irmã de quem entrou no hospital com vida e não saiu…
    o contrato, a validade.. não sei, mas creio que não somos nós quem estipulamos.. e talvez por um milagre, com um empurrãozinho médico, tenha alguma prorrogação.

    não sei o que é pior.. só reconheço a falta de preparo pra encarar.

    toda a sorte do mundo, que das tuas maos saiam inumeras prorrogações 🙂

    ;*

  5. deco, que bom seu post. as vezes penso nesse ônus da medicina. mas sabe deco, penso que o que tem que ser vai ser. se o contrato for vencido, ele cumpriu até onde estava determinado, seja lá pelo que ou por quem. deus, natureza, biologia. não faz diferença. o contrato chega ao fim do mesmo jeito. as vidas mudam, algumas acabam. mas a vida da esposa, do cachorro, do namorado, da esposa e do filho nunca mais serão as mesmas. não tem como pensar e ler isso sem transportar pra nossa vida e pensar como é difícil tudo isso e como temos que aprender a lidar com isso. mas isso só nos faz ser pessoas melhores, e seremos profissionais cada vez mais humanos, decentes e eficientes. abraço forte, decão do caminhão;

  6. Deco…

    Parabéns pelo post….lendo tudo o que você escreveu, até até para visualizar tudo o que aconteceu….

    Bjs

  7. Que post!!!

    Sensacional Deco!
    Acho “mágico” na medicina não só mudar/salvar a vida do paciente mas também a de todos os entes.
    Cada vez mais tenho certeza que é isso que eu quero! 🙂

    Obg por escrever!
    Abs

  8. Oi Deco…que história dramática..
    Mas fascinante.

    Nunca sabemos quando nosso contrato vai acabar, mas devemos viver como se hj fosse o ultimo dia!!!

    Muito bom o seu post, e com sabemos, vc será um brilhante médico!!

    Me permite passar essa história para meus amigos?

    Bjs

  9. ai ai… ouvir as palavras certas é optimo, saber que vêm do outro lado do oceano é ainda melhor. faz com que o mundo pareça mais pequeno e esta missao mais real.
    obrigada por sempre visitares o meu blog…

    ah! nao esqueci o postal… ando a tratar disso.

    bjs

  10. Déco, esse seu post foi muito belo. Com uma beleza literária, para tratar de um tema tão difícil de (glup) engolir… Acho que a morte vem. SEMPRE. E se negarmos, seremos pegos desprevenidos. E desesperaremo-nos.
    Por isso, por hj, digo q sempre gosto do q vc escreve, mesmo qdo eu ñ posto comentário. Por hj, agradeço.
    Espero que nos vejamos na rotina, outros dias depois! Mas se ñ ocorrer, tudo bem… td está certo. =]

  11. Nossa Deco amei esse post muito comovente mesmo, nos faz parar e pensar na vida e como ela pode acabar a qualquer momento sem que possamos fazer coisas que planejamos. É muito bom tambem pra lembrarmos que todas as pessoas tem uma historia, sonhos e projetos e entao não se acostumar com a morte mesmo que seja de pessoas desconhecidas.
    Obrigada por compartilhar sua tragetoria! me ajuda muito a manter o foco e não desistir do meu sonho =D

    Bjux

  12. Noosa muito legal a história, e assim vejo um pouco da realidade da profissão que quero seguir.Deve ser muito triste, por mais que se acostume a ver as pessoas morrendo. A tempos procuro um blogueiro ou blogueira estudante de medicina, muito legal os textos. 😀 Otima semana e sucessos.

  13. Deco,

    O post é lindo e a sensação que eu tive enquanto lia foi incrível. Ou melhor, as sensações foram incríveis. É quase inevitável não se imaginar no lugar de quem tava passando por aquilo, ou da família, ou dos amigos, ou de um estudante de medicina que vê pela primeira vez essa situação. E deve ser triste pra todos. Como estudante de medicina, eu fiquei pensando no quanto eu devo aprender ainda, no quanto eu preciso ser forte sem ser insensível. Como pessoa, eu fiquei pensando no quanto eu devo aprender ainda, no quanto eu preciso ser forte sem ser insensível (sim, é exatamente igual porque um estudante de medicina, ou um médico, antes de tudo, é uma pessoa, e todo mundo deveria se lembrar disso sempre, inclusive a gente). Pensei também em como é ruim não dizer o que se tem vontade de dizer, não fazer o que se tem vontade de fazer, perder tempo por achar que se tem todo o tempo do mundo…
    E que orgulho que dá de você, Deco! Pouca gente vai aproveitar tão bem quanto você uma das melhores coisas da medicina: aprender com as pessoas que passarem pela sua vida, se emocionar com elas, levar um pouco delas com você e deixar um pouco de você com elas. Ótimo pra você, melhor ainda pra quem passar pela sua vida.
    Acho que eu posso falar por todos (ou quase todos) os leitores do seu diário: obrigado por nos emocionar, por nos fazer pensar, por nos fazer rir ou chorar.

    Abraço, padrinho-melhor amigo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s