Suco de Maracujá

Mudança de endereço: pessoas, mudei o endereço do blog! A partir de agora será: https://registromedico.wordpress.com. Todo o conteúdo desse aqui está lá também! Em breve esse será desativado!


Sempre odiei suco de maracujá. Minha mãe conta que quando eu era bebê, e ela me dava suco de maracujá na mamadeira, já que minha irmã adorava e adora até hoje, eu chorava e cuspia fora. Vai entender o por quê. Só sei que nunca tomei um copaço de suco de maracujá, só provei algumas vezes para as pessoas não dizerem que eu não gosto porque nunca bebi. Mas sei bem como é o gosto, e não gosto!

Quinta-feira a tarde. Agora é dia de atenção primária à saúde, e lá vamos nós voltar para a UBS Jd. Boa Vista, zona oeste de São Paulo. Mas dessa vez é diferente. Não é mais igual ao primeiro ano, quando a experiência foi horrível. Parece que finalmente vamos ver como é a atenção primária…

Eu e mais dois amigos ficamos acompanhando um residente de Medicina da Família no dia-a-dia de um médico atuante do PSF, ESF, que seja (Programa, ou Estratégia, de Saúde da Família). E desde o primeiro dia estamos acompanhando o caso de uma família que mora bem perto da UBS, relativamente típica, onde o alvo principal é uma garotinha de 10 anos, de nome engraçado, a qual seus pais são divorciados e passa a maior parte do tempo com a sua avó.

A garotinha chegou bem deprimida na primeira consulta, semanas atrás. Estava triste porque sua mãe não se dava bem com seu pai, e ela, por morar com a família do pai, se sentia abandonada pela mãe e numa situação ruim, já que gosta muito dela.

Sua avó é uma avó igual a muitas outras. Diabética e hipertensa, além de também ser superprotetora e preocupada com a neta, trouxe a neta para a UBS pois achou que uma conversa com o médico poderia lhe ajudar. Notamos que ela não se preocupava muito com a sua saúde, sendo que sua diabetes e pressão estavam descompensadas. Sua preocupação era com a tristeza da neta.

Conversamos com a garotinha, e ai comecei a ver a Atenção Primária com olhos diferentes. Passado o preconceito, vi que medicina da família é uma área completamente a parte da medicina. Essa especialidade é a que todos os pacientes procuram: é aquele onde o médico está ali para conversar com você, saber como você está, te ouvir, e além de tudo  isso, tratar da sua saúde. Caso você queira que o médico te escute com o estetoscópio, ele vai ouvir. Se você quiser contar de como sua vida em casa está difícil, ele vai ouvir. Se você quiser trazer outras pessoas para conversar, ele vai ouvir. Enfim, é uma profissão difícil.

Semana seguinte, conversamos com uma prima dela, que mora na mesma casa. Ela tinha ido até lá por causa da insistência da avó, também, pois ela queria marcar uma consulta com a dermatologia e não sabia como. Além de vermos a queixa dermatológica dela, conversamos sobre a garotinha. É interessante vermos como se faz um diagnóstico familiar e que questões consideradas bobas podem ser muito importantes para a saúde das pessoas.

Bom, depois de terminada a consulta, partimos para a visita domiciliar, que aos poucos está se tornando bastante comum. Um médico, ou enfermeiro, ou agentes comunitários da saúde vão até a casa dos pacientes para ver como estão as coisas por lá, e ver como está a pessoa em casa. (Isso é muito importante, por exemplo, em diagnóstico de hipertensão, pois a pessoa tende a ter uma pressão mais alta quando vai a hospitais ou UBS)

Andamos alguns metros e subimos uma escadaria gigantesca para chegar na rua da casa da garotinha. Quando chegamos lá, a garotinha nos recebeu numa alegria, que fiquei até constrangido por estar deixando alguém tão feliz sem nem saber o porquê. Ela nos mostrou a casa inteira, o lugar onde ela dormia, onde estudava, onde brincava, etc.

E então fomos conversar com a avó. Perguntamos sobre os vários remédios que ela tinha que tomar por causa da diabetes e da pressão alta, e ela nos mostrou um por um dizendo qual horário ela tomava. Lá, também, encontramos o avô, senhor muito simpático, que ficou muito contente em nos ver também. De novo, fiquei com aquele sentimento de estar recebendo créditos por algo que eu não tinha feito: no fundo, nem queria estar ali, já que estava imensamente preocupado em estudar para as mil provas que eu ia ter.

Aferimos a pressão da avó, e conversamos um pouco mais com a garotinha. Foi uma tarde muito esquisita, completamente diferente de outras que eu tive, e até mesmo de outras visitas domiciliares que eu fiz no primeiro ano. E, depois de finalmente me sentir a vontade com a situação, comecei a gostar daquela visita, de toda a alegria em nos receber e da recepção calorosa por parte de todos.

E então, quando estávamos para ir embora, a avó perguntou: você querem tomar um café, comer alguma coisa? Eu, prontamente, disse não. Sabia que seria um incômodo, mesmo ela dizendo que não seria. Fora que eu não sabia como era a situação econômica daquela casa, não queria que ela “gastasse” a comida da família conosco, que poderíamos ir na padaria e comer mais tarde. Mas meus amigos disseram que sim, e, a contragosto, fui até a cozinha.

A avó começou a preparar um suco, e nos serviu num copo engraçado e, o pior de tudo, grande. E então, cheguei o copo perto da boca e senti o cheiro do suco: era maracujá.

E aí começou o conflito psicológico. Tomar ou não tomar o suco? E se eu experimentasse o suco com outra visão? E aí explico a metáfora para vocês: o suco de maracujá representa a atenção primária e todas as coisas que eu sempre fui contra e nunca gostei. Depois de ter contato com ela no primeiro ano, percebi que não gostava de UBS, não gostava de visitas domiciliares; bom, não gostava da atenção primária em si. Mas depois daquela tarde, e todo o acompanhamento com aquela família, passei a ver tudo de uma maneira diferente.

E, enfim, tomei a decisão. Bebi o suco de uma vez.

Bom, depois de tudo isso, percebi que o suco de maracujá continuava sendo suco de maracujá. Mas talvez a metáfora seja quebrada nesse ponto! 🙂

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12 comentários sobre “Suco de Maracujá

  1. Ah valeu pela iniciativa 😉
    Eu adoro suco de maracujá e mousse de maracuja *_*
    Esse contato com o paciente é muito importante! pena q às vezes não dá =/

  2. decóyc, fantástico esse post! No começo achei q vc ia falar de receita… huhuhu #marcarcomolido e por fim vi uma bela lição de vida! 😀
    q fera! /o/ queira ou não, UBS é sempre ressoante. OMG

  3. O meu problema com essas visitas é só esse, mas Deus que me perdoe, eu sou muito nojentinha com coisas de comer/beber e não é só em lugares simples não, em casa também, só como verduras se tiverem sido lavadas por mim, por exemplo :s. Aí o dilema é muito grande pq eu sempre fico em pânico pensando na hora que vão nos oferecer alguma coisa pra comer. Que bom que vc aceitou, pq diz que eles recebem a recusa como se fosse uma grande ofensa. ;s Complicado! Haha.

    (Eu acho que já perguntei aqui uma vez, mas me perdi nos posts e não achei uma possível resposta sua: Tu poderia me indicar uma loja especializada em artigos e equipamentos médicos? Vou a SP e queria aproveitar pra comprar umas coisas. Se puderes me indicar, agradeço!)

    • Oioi, respondi no seu comentário em outro post hoje no almoço, mas esqueci qual foi já hahaha
      então, as lojas que conheço é Rimed, Lunamed e dipromed, mas não conheço nenhuma com coisas mto bonitinhas nao ahhaha

      Ah, eu me sinto meio desconfortável nessas situações.. acho que é inevitável mesmo ahah

      Bjs

  4. Cara, encontrei seu blog há algum tempo, só que você nunca mais postou depois do dia em que eu descobri LOL
    Tudo bem, eu te entendo. Entendo mesmo. Tô no quarto período de med, um dos mais tensos na minha faculdade. De qualquer forma, admito que entro no seu blog (quase) todos os dias, pra ver se você postou alguma coisa nova =)
    Adoro ficar lendo suas postagens antigas entre uma prova e um trabalho. É reconfortante (?) saber que existem outras pessoas por aí, em outras cidades, passando pelo mesmo que você.
    Enfim, esse post do suco de maracujá ficou lindo. Amei *_*

    • Hahhah aah, obrigado!
      Cada vez fica mais difícil postar :/ vc deve saber como é!
      Bom, todos sofremos iguais, sempre digo isso hahaah mas no fim tudo dá certo! 🙂

      Bjs

  5. Olá!
    Encontrei seu blog por acaso no google!
    Sou Terapeuta Ocupacional e sempre admirei muito o programa (ou estratégia hehe) de saúde da família!
    Fiquei contente em ler sua percepção sobre a atuação do médico nesse contexto….o que sempre percebo é q não é uma area muito admirada pela categoria! E isso se percebe até pela qtdade de vagas não preenchidas por falta de profissionais nas UBS.
    Além do descontentamento dos pacientes com relação ao atendimento com o médico…
    Parabéns pelo seu sentimento em relação aos seus pacientes! 🙂

  6. Haha, continuo lendo em doses homeopáticas, quando dá um tempinho, em ordem cronológica.
    Dá prá perceber o primeiro grande sintoma do amadurecimento nesse post. Tá crescendo! 🙂

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