Cirurgia, MI e PPONGs – Parte 3

Mudança de endereço: pessoas, mudei o endereço do blog! A partir de agora será: https://registromedico.wordpress.com. Todo o conteúdo desse aqui está lá também! Em breve esse será desativado!


E chegamos ao final do quarto ano, com essa matéria de nome estranho. Na realidade, PPONGs é uma sigla para Pediatria, Psiquiatria, Obstetrícia, Neurologia e Ginecologia. Ou seja, é aquilo que faltava e que não foi enfiada na Clínica (leia o post sobre Clínica), nem em Cirurgia (leia a Parte 1) (e sim, Ginecologia e Obstetrícia, GO, também é cirúrgica).
Bom, o curso tem duração de 12 semanas e temos todas essas matérias juntas durante a semana, ao contrário de Clínica, que tínhamos só algumas matérias por vez. No começo é meio confuso, mas depois vai ficar mais fácil.

Agenda
É importante ter uma agenda numa hora dessas…

Bom, vamos por partes:

1) Pediatria

O curso de Pediatria é dado no HU (Hospital Universitário) que fica lá no campus da USP. Basicamente ele serve pra gente aprender a pegar uma criança sem quebrar o pescoço dela, ou não derrubá-la ao tentar colocá-la na balança para pesar. E o mais importante na Pediatria: aprender a ouvir a mãe ou pai e, claro, decorar o calendário vacinal (é, essa hora ia chegar cedo ou tarde).

Em geral nós tínhamos nossos pacientes pela manhã, e era sempre consulta de puericultura (acompanhamento do crescimento da criança) das crianças que nasciam lá no HU saudáveis. Aí tinha que pesar, medir, perguntar se estava indo tudo bem, se a criança estava mamando bem, repetir um bilhão de vezes que a melhor coisa é o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade, dar bronca se a mãe está dando danoninho e toddynho pro bebê de 3 meses, falar que dente nascendo não dá febre por mais de 5 dias, que isso é doença, diagnosticar miliária e monilíase (pesquisem) e etc. E aí vem todo um novo conceito de gráficos, porque a pediatria adora gráfico:

Pelo menos não precisa ficar calculando coisas
Pelo menos não precisa ficar calculando coisas

Bom, era legal e simples. E nas tardes tínhamos aulas com a Pediatria mais famosa e sorridente do Brasil, Dra. Ana Maria Escobar, que dá as melhores aulas de Pediatria do mundo, sem exageros. E ela é muito engraçada!

Chequem: http://g1.globo.com/bem-estar/videos/t/pediatria/v/oleo-mineral-pode-ajudar-a-retirar-objetos-do-ouvido-das-criancas/2183785/

2) Psiquiatria
Psiquiatria sempre foi uma área obscura para mim, porque não consigo gostar dessa especialidade. Obviamente não por preconceito, mas é que minha empatia é muito grande e em algumas doenças psiquiátricas vão além do que eu poderia achar saudável. Mas enfim, como a maior parte do curso é teórico, foi muito bom para finalmente aprender alguma coisa a respeito
Mas a parta prática era um pouco tensa. Em geral ia um paciente, que estava internado, lá na sala pra conversar conosco (éramos divididos em grupos pequenos). E aí o choro é livre.

Nessa hora eu abraço o Charlie Brown e choramos juntos
Nessa hora eu abraço o Charlie Brown e choramos juntos

Por mais que eu entenda todas as doenças, a base fisiopatológica delas e sei que os pacientes são lá do Instituto de Psiquiatria, não consegui não pensar que eram atores contratados pra falar com a gente hahaha vai saber eram mesmo.

3) Obstetrícia

Bom, o HC é um hospital terciário, que em geral atende casos complexos. Na obstetrícia não é diferente, e então alguns pré-natais que vimos eram de casos bizarros e complicados, não aqueles bonitinhos de posto de saúde que a mãe chora ao ver algo que finge que enxerga ser o bebê no ultra-som! Mas as mães do HC também choram, e nós também!

Se todos os ultra-sons do mundo fossem iguais a você!!
Se todos os ultra-sons do mundo fossem iguais a você!!

Vi algumas coisas meio tensas :/ um dia estávamos no Centro Obstétrico (onde ocorrem os partos, tanto vaginais quanto cesáreas) e eu vi uma moça que tinha engravidado e descobriu no ultra-som que seu feto tinha uma doença incompatível com a vida, mas que era mantido vivo intra-útero. A doença, doença renal policística autonômica dominante, geralmente causa morte com o feto dentro do útero ou nos primeiros dias de vida. O drama era que a mãe já tinha tido um filho com essa doença, e foi muito sofrido para ela. Então, dessa vez ela decidiu entrar com um processo judicial para conseguir fazer o aborto. Só que como demora mil anos esse tipo de processo, algumas semanas se passaram e o procedimento, que antes seria mais simples, tornou-se mais complicado e foi bastante doloroso para a mãe. Não lembro detalhes, mas foi bem chocante, nunca tinha visto ao vivo.

Moral da história: nem só de estupro e anencefalia são feitos abortos! Já que esse blog é democrático, todas as opiniões são aceitas e respeitadas, inclusive a minha: no início da faculdade eu era contra o aborto. Agora sou a favor da liberação. Ainda mais depois de ver essa situação que foi muito triste. A mãe, caso tivesse direito ao aborto antes, não teria passado por metade do sofrimento que ela passou até ali, e é algo injusto e cruel.

Mas enfim, como não fazemos propaganda de aborto aqui, então vamos para o próximo assunto!

4) Neurologia

Curso muuuuuito maluco. A primeira parte da aula era teórica, em geral aulas longas e cheias de blá blá blá. Neurologia tem o estigma de ser uma especialidade difícil, em que geralmente o neurologista só diagnostica a doença, mas não tem meios de curá-las. É um pouco falsa essa afirmação, já que muitas das doenças neurológicas ambulatoriais são tratáveis, foram todos os AVCs que podem ser potencialmente revertidos caso seja tomada uma conduta adequada, que envolve serviço de resgate, hospital com equipe preparada e materiais necessários.

Mas enfim, depois de todo o blá blá blá difícil de neurologia teórica, éramos divididos em grupos e íamos para o hospital para ter a aula prática, e era uma bagunça geral, porque nós não sabíamos quem era os professores, nem pra onde ir. O ponto de encontro era o átrio do hospital, e ficava lotado de alunos esperando um professor chegar. Era bem bagunçado, mas no fim dava certo.

Neurologistas são bem assim
Neurologistas são bem assim

A aula de Neurologia Infantil foi devastadora. É incrivelmente triste 😥 não consigo descrever hahaha vimos muitos casos, mas conversamos com duas crianças que tinham doenças neurológicas genéticas. Um menino de uns 4 anos que estava praticamente cego e não andava e a outra era uma menina de 1 ano e pouco que tinha uma ataxia cerebelar gigantesca (leia http://pt.wikipedia.org/wiki/Ataxia).

E na aula de Comas… meu Deus. Fomos na UTI e tinha um paciente lá em coma fazia algum tempo. O professor pediu para examinar o paciente, e foi extremamente constrangedor. A começar, todos sabíamos que o paciente estava em coma, logo, a classificação dele na Escala de Glasgow (leiam também: http://pt.wikipedia.org/wiki/Escala_de_Coma_de_Glasgow) era bem baixa. Mas ele insistiu para fazermos desde o início, então lá fui eu examinar o seu  João (nome fictício, ou não, já não me lembro mais 😦 ). Pra começar a gente chama pelo nome, depois dá umas sacudidas nele, e vai tentando estimular para saber o tipo de resposta ele tem de acordo com o nosso estímulo (se vocês leram, vão entender). 

Foi muito tenso ficar sacudindo o paciente em coma. Não sei explicar a sensação. Foi mais uma das coisas estranhas que fiz nessa faculdade.

5) Ginecologia

E finalmente, a última! Ginecologia foi uma dos módulos com mais atividades práticas que a gente teve! Na realidade a atividade prática de baseava em: senta aí, atende uma paciente e não seja processado. Basicamente foi isso.

A parte do “oi, tudo bem? Me conta o que aconteceu com a senhora!” sempre é fácil. Ou nem sempre. Ginecologista, além de médico, é amigo, psicólogo, simpático, endocrinologista, ortopedista, nutricionista, etc. etc. E mulheres geralmente falam bastante. Então haja papo e problemas pra resolver. Mas depois de muito esforço, a gente consegue localizar a queixa ginecológica e aí pede para a paciente se despir para a gente examinar.

Bom, para delírio dos tios engraçadinhos da família, a gente vê tudo das mulheres da ginecologia. Esse papo tá muito weird, então vamos mudar de assunto! Mas quem é mulher sabe que o vínculo que se cria com o ginecologista é muito íntimo, e durante o exame ginecológico há uma conexão bizarra entre nós e as pacientes.

Basicamente é isso.

E finalmente terminei o quarto ano!!! Quem diria que esse dia iria chegar! Enrolei mas consegui.

O próximo post será sobre alguns eventos que aconteceram nos últimos dias (ou meses… anos. Sei lá.) de alguma relevância para este diário de estudante de medicina.

Até a próxima!

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13 comentários sobre “Cirurgia, MI e PPONGs – Parte 3

  1. Oi deco, acabei de ler todo seu blog e curti muito.espero q vc continue postando.

    Sou louco pra cursar medicina ai na usp..cara eu vim de escola publica e sou de baixa renda…vc q ta ai..sabe se tem possibilidade de conseguir se manter?…pois é integra né..ñ da nem pra trabalhar.( e os livros sao caros)
    Eu sei qtem a bolsa afinal, livros, iniciaçao cientifica, mas isso realmente funciona ou é enrolado

    • Luiz, isso que você falou funciona sim. Além isso, tem a moradia do estudante de medicina, a CEM (Casa do Estudante de Medicina), que é destinada aos alunos de baixa renda (tem que comprovar a renda). Lá é tudo pago para habitação e alimentação!
      É possível se manter, sim, durante a faculdade com esses auxílios!
      Abraços

  2. Oii deco!! Vim te parabenizar pelo blog, to no 2o ano de cursinho pra passar em Med.. Nao é facil mas esse ano vai!!! Quando to desanimada venho ler aqui e ja me motivo mto! Hehe (claro que alguns posts me assustam com o quando de informaçao que temos que gravar kkk) mas acho que no fim vale a pena!! Parabens mesmo por td dedicaçao, vc vai longe! Bjoss

    • Oi, Laura!
      Que bom que o blog te anima, de certa forma! Fico feliz em poder ajudar! Essa fase de cursinho é muito difícil mesmo, espero que ela acabe logo 🙂 e vale muito a pena sim!
      Boa sorte e força por aí!!

  3. Deco, está sendo muito divertido ler os seus posts desde o começo. Na verdade, eu comecei a seguir o blog quando você estava em Boston e não tinha reparado nos primeiros posts. Como meu filho é seu calourinho, até tenho conseguido entender melhor tanto as experiências que ele está vivendo agora, quanto o que você escreveu.
    A propósito, achei muito bonita a apresentação de vocês do Remusp no dia do coquetel para os pais! 🙂

    • Olá, Alessandra! Muito obrigado! Foi meio improvisado lá no Remusp porque não tínhamos um piano nem acústica boa, mas que bom que você gostou!
      Os primeiros posts são mais bobinhos, porque naquela época tudo era novidade e alegria hahaha não que agora não seja, mas com o tempo a gente vai mudando um pouco a escrita!
      Seu filho deve estar maluco agora com tantas coisas para fazer e conhecer, mas é ótima essa fase e só dá saudades 🙂 tenha certeza que ele está no melhor lugar possível para realizar todos os sonhos e objetivos dele!

    • Fê! Precisa fazer uma conta na página com o Twitter. É bem rápido!
      Eu gosto muito do Médium porque é ótimo para comentar textos e para escrever também, além de ter milhares de postagens excelentes lá! Se tiver tempo, dê uma conferida!!
      Abraços

  4. olá, parabéns pelo blog ! Estou certa de que quero fazer medicina mas nunca me dei tão bem com cálculos.. isso me prejudicaria na faculdade ?

    • Oi Diva. O máximo de cálculos na prática médica que você terá é regra de três. Durante o curso temos umas aulas de estatística, é chato, é sofrido, mas passa! E pode usar calculadora!!

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