Pediatria (I) – Pronto-Atendimento

Mudança de endereço: pessoas, mudei o endereço do blog! A partir de agora será: https://registromedico.wordpress.com. Todo o conteúdo desse aqui está lá também! Em breve esse será desativado!


Enfim Interno!

Quem diria que esse dia ia chegar… E chegou, talvez rápido demais, apesar de eu ter adiado um ano. Não fiz um post introdutório ao Internato porque já estou um pouco atrasado: já é março e tudo começou em janeiro. Mas tudo bem, acredito que vai dar para entender.

O internato é um dos três ciclos que compõem o curso de Medicina, como vocês podem ler mais aqui, e já posso dizer que sem sombra de dúvidas é a melhor parte e que toda a espera até chegar nele vale a pena!

Tudo começou no início de janeiro, quando chegamos no HU (o estágio todo de Pediatria do Quinto Ano é feito no HU) pela primeira vez e tivemos que nos deparar com o maior drama do Internato: divisão de plantões. É muito complicado e difícil, ainda mais na Pediatria, em que existem algumas regras para os plantões.

Para começar, o estágio é dividido em Pronto-Atendimento (ou PS) e Enfermaria, durando um mês cada. Os plantões do PA são das 7AM às 7PM e das 7PM às 7AM (12h cada), sendo que não é possível fazer plantões de 24h e não podemos fazer plantões nos dias de Preparo para o Ambulatório e do Ambulatório (explico mais adiante). Ou seja, é muito difícil. No fim deu tudo certo, depois de algumas horas tentando e errando. Os da Enfermaria era mais simples, já que eram apenas noturnos e de fins de semana.

Além dos plantões, nos dividíamos em quarto grupos, e cada grupo tinha um dia de Preparo para o Ambulatório e um dia de Ambulatório e os Seminários da Enfermaria. No Preparo nós tínhamos acesso aos prontuários dos pacientes que atenderíamos no Ambulatório, para que pudéssemos saber o que o paciente tinha e o que teríamos que fazer nas consultas. Depois disso, tínhamos uma discussão sobre um tema ambulatorial (tratamento de asma, anemia, etc etc). O Ambulatório era basicamente atender pacientes, fazendo puericultura e acompanhamento de alguma comorbidade. Os seminários da Enfermaria eram aulas de temas e doenças na Pediatria.

E, por fim, todas segundas, terças, quintas e sextas tínhamos aulas teóricas às 11AM sobre todos os temas possíveis da Pediatria. As aulas eram dados pelos Assistentes, que na Hierarquia do Hospital são os chefes dos Preceptores, Residentes e os peões, no caso os Internos hahaha

Bom, primeiramente, o PA era algo extremamente cansativo. O HU é um hospital de porta aberta, ou seja, qualquer pessoa que estiver passando ali na frente pode entrar. Então tínhamos casos como Crise de Asma Grave, aspiração de corpos estranhos (“engasgo” com objetos), convulsões, etc etc, mas também tínhamos obstipação (bebê/criança que não vai ao banheiro há alguns dias), crianças que não comiam carne e pintas nos pés. Obviamente que os casos bestas eram bem mais frequentes, então deixo o recado:

POR FAVOR, SÓ VÃO AO PRONTO-SOCORRO SE FOR ALGO REALMENTE NECESSÁRIO OU SE FOR UMA EMERGÊNCIA. PRONTO-SOCORRO NÃO É PEDIATRIA DE CONSULTÓRIO.

Segundamente, examinar crianças chorando é extremamente difícil. Pior ainda são crianças mal-educadas e pais complacentes que deixam as crianças destruírem o consultório e não fazem absolutamente nada. Como lidar?

Não é fácil.
Não é fácil.

Mas apesar de todo o cansaço, aconteciam coisas muito engraçadas, como o dia que uma mulher me disse que não acreditava em nada que o Drauzio Varella falava na televisão, já que ele só queria aparecer. Ou então o dia que uma mãe e uma madrinha de uma criança de 4 anos tirou fotos de toda a consulta para mostrar para a família como a criança estava crescida, quase um homem. Mas pra mim o ápice foi quando uma mãe foi na consulta para me perguntar se podia fazer um atestado porque não pode levar o filho pra creche porque acordou atrasada. Claro que isso não é tão engraçado, mas é trágico: em um mês de PS, já vi o tanto de gente que leva até criança pro hospital pra conseguir atestado.

Deixa que a moça explica pra vocês as leis do atestado:

A tia aí vai explicar:
A tia aí vai explicar:

1) O atestado numa consulta Pediátrica não é para você, mãe ou pai, é para a criança.

2) Um atestado não é um passe-livre para faltar na escola ou na creche: dependendo da doença, a criança só ganha um certificado das horas que passou no hospital.

3) O atestado não deve ser dado só por dó da criança. Deve ser ponderado se há necessidade de dispensa das atividades.

4) Não vou dar atestado de um mês para uma criança com gripe.

Enfim, dá pra passar um mês falando de atestados e da cara-de-pau de alguns pais que sabem até o CID (leia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Classificação_internacional_de_doenças) de algumas doenças.

E nem tudo é graça, porque as vezes vêm uns casos que são muito difíceis. Um deles foi uma moça que chegou com uma bebê de uns 11 meses, e quando ela sentou na cadeira com a menina no colo eu já percebi que tinha algo errado: a criança era totalmente mole, com olhar vago, pouco reativa, mas não tinha cara de quem tinha alguma doença aguda. E li na ficha que o motivo da procura era “Avaliação de Dor de Garganta”, então perguntei: e aí, o que aconteceu com a garganta da X (nome preservado para eu não ser processado)? E então a mãe, que era jovem, começou a chorar copiosamente me pedindo desculpas por ter mentido, já que a filha não tinha dor de garganta. Aí imaginem minha cara na hora:

Eu
Eu

Não tem aula na faculdade que te ensine como a lidar com esse momento. O que eu fiz: chorei junto. Mentira hahaha. Levantei, fui do lado dela, agachei e falei para ela ter calma que a gente ia tentar resolver o problema dela, desde que ela me explicasse tudo. No fim deu certo e ela me explicou, o que não facilitou minha vida: a menina tinha um atraso no desenvolvimento, e ela tinha marcado uma consulta no neurologista do posto, mas a consulta era só para 8 meses. Então ela juntou dinheiro das economias dela e do restante da família e foi em um neurologista particular, que muito gente boa pediu um Eletroencefalograma e uma fucking Ressonância Magnética de Crânio. Coisas básicas e fáceis de conseguir. Ela voltou no posto e já falaram para ela que era impossível ela conseguir fazer esses exames pelo SUS, e ela desesperada saiu de lá e foi até mim pedir ajuda. O que eu fiz: chorei de verdade. Por dentro. Não tinha como fazer isso por ela. Mas no fim movi mundos e fundos e consegui um Ambulatório de Neurologia Infantil no HC para poder recebê-la e fazer o acompanhamento da criança. A mãe me agradeceu tanto na hora da despedida que aí sim eu quase chorei mesmo. A parte boa da Medicina é essa 🙂 não sei se a criança vai ficar bem, mas dar um pouco de esperança para aquela mãe desesperada fez meu dia melhor.

Tive muitos outros casos dramáticos como esses, mas não dá para ficar escrevendo aqui senão vocês vão ficar lendo esse post pro resto da vida de vocês.

Mudando de assunto, então, os plantões noturnos eram muito bons 🙂 Apesar de todo o cansaço de passar o dia todo acordado e ainda não poder dormir a noite, esse plantões eram ótimos porque só vai ao PS nesse horário quem realmente precisa (nesse horário = depois da meia-noite, porque até meia-noite ainda tem pais que levam as crianças sem terem nada demais). Em geral chegam as crianças com Crises de Asma, com convulsão, com Laringite e etc, etc.

Mas vou ser bem sincero: se você, leitor, que acha um saco quando o médico diz que você está com virose, e você de fato está com virose (diarréia, vômitos, nariz escorrendo, dor de garganta, febre, etc.), saiba que nós achamos um saco também diagnosticar isso. Existem um milhão e meio de vírus que causam os mesmos sintomas, e infelizmente nosso sistema de saúde não é capaz de fazer exames para identificar qual tipo de vírus você tem. Então contente-se em saber que uma infecção viral é auto-limitada (começa e passa sozinha) e não tem remédio pra isso, a não ser o tempo!

MAS QUE HUMOR MAIS REFINADO. Acho que vou ler mais 500 vezes pra achar a graça.
MAS QUE HUMOR MAIS REFINADO. Acho que vou ler mais 500 vezes pra achar a graça.

Bom, explicando um pouco mais como funcionam esses plantões: nós, internos, recebemos os pacientes, atendemos, tiramos a história, examinamos e bolamos uma hipótese para a doença da criança. Depois disso saímos da sala e vamos discutir com um residente, preceptor ou um assistente (pessoas com carimbo, digo, médicos), que vão ver se sua hipótese está correta e vão carimbar a ficha que você preencheu da criança. A depender da doença, há diversas condutas: remédios, procedimentos, tratamentos, etc, e temos que pensar em algo para expor durante a discussão, porque estamos sendo constantemente avaliados por esses médicos que darão a nota final para nós. E aí a nós fazemos a prescrição, ou solicitamos o medicamento no PS mesmo e damos para os médicos carimbarem para nós. Ou seja, somos médicos sem carimbo. Ou quase isso.

Claro que nem sempre acertamos as coisas, e acho que nessa fase do curso médico, quanto mais erramos, mais aprendemos. Imagina a vergonha que você passa quando erra algo durante a discussão com o Assistente (que é médico há alguns anos e chefe dos seus chefes). Pois é, não é fácil hahaha e aí você nunca mais erra, ainda mais quando o erro é bobo. E assim vamos aprendendo as coisas.

E nomes de remédios? Sim, temos que começar a saber. E não é tão difícil assim… Com o tempo você vai acostumando e quando vê já sabe até as doses de alguns (sim, dipirona principalmente,  apesar de ser uma gota por kilo).

O mais legal é que depois de um tempo, você recebe um paciente com falta de ar e já sabe exatamente o que fazer e já vai pedindo para as enfermeiras ajudarem na medicação e salva a vida da criança (mais ou menos hahaha). E o aprendizado é absurdo! Você aprende muito em pouco tempo, e saí de lá totalmente diferente de como entrou!

Bom, o PA é basicamente isso. Estou escrevendo um pouco mais sobre alguns casos que peguei na minha página no Medium, e o último foi sobre Pediatria, apesar de ser sobre Enfermaria, o tema do próximo post daqui. Confiram: https://medium.com/health-and-medicine/2efdc1d7e21b

Em breve volto para falar sobre a Enfermaria. Se alguém ficou com alguma dúvida específica sobre a Pediatria e o Internato, pode perguntar nos comentários que eu respondo!

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33 comentários sobre “Pediatria (I) – Pronto-Atendimento

  1. Deco, sou sua fã! Gosto demais do que vc escreve e de como vc escreve! Acho que vc deveria, ao final do curso, publicar em forma de livro! Mesmo que eletrônico! Vc, com suas dicas e descrições do caminho do futuro médico, aqui na FMUSP, acaba sendo um mentor dos novos alunos. Parabéns, Patrícia Bellodi (Coordenadora Programa Tutores FMUSP)

    • Patrícia, obrigado! Vou ter que dar uma filtrada caso publique, porque senão vou ser processado, com certeza hahaha
      Tento deixar o curso mais palpável para os futuros estudantes, já que existe tanto misticismo ao redor do curso de Medicina e da própria Medicina.
      Obrigado pelo comentário! 🙂

  2. Oi, tudo bem? Estou adorando seu blog, é muita fantasia por trás da Faculdade de Medicina, tenho um filho de 3 anos que a quase dois luta contra o câncer, meu sonho sempre foi fazer medicina e esse ano depois que acabar o tratamento quero começar um cursinho por que já fazem 4 anos que eu não estudo e não é fácil entrar na faculdade… Você teria algumas dicas? Obrigada.

    • Olá Vanessa!
      Que legal, espero que dê tudo certo por aí! Bom, as dicas são: ter muita força e paciência, seguir o material dos cursinhos, manter na cabeça o seu foco e não desistir 🙂
      Fora isso, todo o resto é detalhe!
      Boa sorte para você e para o seu filho!!

  3. Tenho acompanhado seu blog , e estou cada dia mais convencida que quero prest vestibular para medicina , no me envergonho de ter retomado meus estados com 29 anos ,sendo que para meus professores , e um pouco tarde eu quer ser mdica.

    viviane

  4. Olá, quantas horas vc dorme durante a semana e aos finais de semana? Se são algo em torno de 4 horas por dia, como consegue? Com cafeína, teofilina, teobromina, taurina? Toma, já tomou ou pretende tomar remédio estimulantes, uso off label, derivados metanfetaminas ou de efeito análogo a cocaína, tarja preta: cloridrato de metilfenidato, modafinil, provigil, etc? Quanto as ampakinas e os derivados de pirrolidona, os chamados RACETAM: Piracetam, aniracetam, pramiracetam, etc, os conhece? O que acha em específico do Pramiracetam, quanta as provas científicas no tocante ao seu uso como Nootrópico ou Brain Doping? Quando esteve em Harvard conheceu algum Nootrópico que ainda não está disponível no mercado brasileiro? Qual?

    • Olá amigo! Entendi só o “Olá” e o “Qual?” hahaha
      Bom, dá pra dormir relativamente bem, depende do dia. E não uso nada disso. No máximo um copo de 100ml de café. E não sei nada sobre isso, nem em Harvard me lembro de alguém comentar sobre isso.

  5. Olá deco! Estou amando teu blog, Parabéns! Estou no 3°ano do Ensino médio, E não me vejo fazendo outra coisa a não ser Medicina,e estou pretendendo seguir a área da pediatria também… Tenho medo de não conseguir entrar em uma faculdade boa, nunca fui uma pessoa muito estudiosa, e só decidir fazer medicina ano passado, então não venho me preparando. E medicina é sem duvidas algo que me deixa muito Feliz, principalmente Pediatria (: . Será que tenho chances? ou desisto e procuro outro curso? Abraços!

    • Olá, Lais!
      Tem chance sim! Todos têm 🙂
      Basta se dedicar e ter em mente o seu foco! Determinação é o principal!
      Espero que dê tudo certo por ai. Boa sorte!

  6. oi Deco, estou fazendo cursinho pré-vestibular para tentar entrar na faculdade de medicina..confesso que já repensei muitas vezes se é isso mesmo que eu quero, e olhando o seu blog me veio a certeza de que SIM! SIMMM, é isso que eu mais quero e vou continuar lutando pra conseguir, obrigada pelo blog (que com certeza ajuda a muitos!) e sucesso na sua carreira, beijos ;*

    • Mateus, não parei para contar pra não ficar triste hahaha
      Mas no internato é bem puxado mesmo, dependendo do estágio. Na pediatria tínhamos uns 4 plantões por semana de 12 horas. Tínhamos aulas de manhã e algumas atividades a tarde. É difícil contar quanto tempo livre tenho, porque depende bastante da semana e da escala de plantões.

      • Olá!
        Não. Internato é estágio obrigatório não remunerado. Os plantões variam de acordo com o estágio e a faculdade. Na minha são proibidos plantões de 24h, mas as vezes damos 24h ou mais com todas as atividades que temos que fazer. Acho que o máximo de plantão são uns 4 ou 5 por semana, e os mais tranquilos são sem plantões haha depende bastante da especialidade!

  7. Olá!
    Sempre quis fazer medicina, você acha que estudando esse resto de ano tenho chances não sou muito estudiosa mas vou me dedicar ao maximo, caso não consiga vou fazer em uma particular mesmo o que você acha?
    muito obrigada bjs

  8. Que legal, eu ri com umas partes do texto, como assim a mulher pede um atestado pq acordou tarde e ñ pode levar o filho pra creche ??? XD
    Criança mal educada + pai complacente = dá nos nervos!!!
    Errar não é de todo ruim mesmo, depois que somos corrigidos e damos aquele sorrisinho sem vergonha, nunca mai esquecemos hehehe

  9. Deco, estou no terceiro ano do ensino médio e desde sempre (ok, desde o 1º ano E.M hahaha) sonho em fazer medicina, mas uma coisa que me deixa realmente angustiada é o fato de saber que medicina é um curso que exige muuuuuito (mais do que o normal) do estudante, é fato ou mito que o estudante de medicina a partir do momento que pisa na faculdade diz adeus a sua vida social?

    • Oi Bia. Não, não é, e apesar de estar no 7º ano de blog, ainda não entendi porque as pessoas se preocupam muito com isso. Desde que se organize bem o seu tempo, você terá tempo livre para fazer TUDO o que quiser, inclusive manter a vida social viva!!

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