Obstetrícia – Parte I

Mudança de endereço: pessoas, mudei o endereço do blog! A partir de agora será: https://registromedico.wordpress.com. Todo o conteúdo desse aqui está lá também! Em breve esse será desativado!


E logo após acabar Pediatria, fomos para Obstetrícia. Talvez um dos estágios mais pesados do quinto ano porque tem muitos plantões. E quando digo muitos, são muitos mesmo. Antes de falar um pouco mais sobre o estágio e a Obstetrícia, vou deixar aqui um causo que escrevi no meu Medium, a pedidos de alguns leitores:

20/03/2014 — Pronto-Socorro da Obstetrícia do Hospital Universitário da USP

Aquele plantão tinha tudo para ser o pior que eu já tinha passado. Quando a gente está na Faculdade de Medicina, no início gostamos de ver casos graves e doenças raras. Qual o estudante que nunca desejou ver todas as síndromes que viu em House ou as cirurgias complexas de Grey’s Anatomy? Bom, eu não era diferente. E continuo não sendo.

Apesar de não ser agradável ver um paciente com uma doença grave, muitos de nós ainda têm aquela admiração pelas doenças complexas e toda a sua fisiopatologia. Vez em quando soltamos um “oh” de admiração não pela doença em si, mas por toda a “medicina” envolvida naquilo. E, não poucas vezes, dizemos “que legal”. Claro que isso não é falta de empatia ou humanização. É apenas fascínio de quem está começando. Inocente e pueril, geralmente.

Pois aquele plantão tinha tudo para ser o pior que eu já tinha passado, repito. Meu último plantão diurno no PS da Obstetrícia. Mas não por isso seria o pior, e sim porque só vieram casos chatos. E por chato, entendam que não são apenas casos não graves e entediantes, mas casos que não ensinam nada para nós, Internos, e só nos fazem “tocar serviço”, expressão muito usada no nosso meio. Exemplos: resfriados sem febre, dores sem febre, febres que não eram febres, e, pasmem, uma gestante que queria conhecer o hospital. Tudo bem, aprendo muito nesses casos: a ter paciência.

Aparelho para ouvir batimentos cardíacos do bebê, mais ou menos assim: http://www.youtube.com/watch?v=-Ji41MI4dyM
Aparelho para ouvir batimentos cardíacos do bebê, mais ou menos assim: http://www.youtube.com/watch?v=-Ji41MI4dyM

E bem quando já estava exausto de tanto falar, apertar barrigas, procurar batimentos do coração do feto com o sonar e tentar descontrair a tensão de todas aquelas mulheres grávidas e seus hormônios, uma enfermeira diz:

“Uma bolsa estourou lá na sala de espera”.

Bom, meu último caso do dia, e que bom, finalmente um parto para alegrar o nosso dia, o meu e o da futura mãe.

Abro a porta e logo vejo uma jovem, em seus 25 anos, com uma barriga proporcionalmente grande para o seu tamanho. Alguns plantões na Obstetrícia já são suficientes para você chutar em qual semana, ou pelo menos qual mês, é a Idade Gestacional, e eu logo deduzi que eram mais de 37 semanas. E, julgando pela feição tranquila daquela mãe e daquele pai, não imaginava que tinha algo errado.

Chamo-a para o consultório e digo:

Cartão de Pré-Natal das Gestantes aqui da Cidade de São Paulo. Foto retirada de: http://amyzeeta.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html
Cartão de Pré-Natal das Gestantes aqui da Cidade de São Paulo. Foto retirada de: http://amyzeeta.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html

“Vai ser hoje, então, Dona Ana?”

Enquanto falava, passei o olho pelo cartão do Pré-Natal e notei algo que não encaixava. A data da última menstruação (DUM, usada para calcular a idade gestacional) era 05/09/2013, e mesmo sem calcular, já entendi que era menos que 30 semanas de gestação. Eram exatamente 28 semanas.

Para tornar a leitura mais inteligível, quando uma bolsa rompe, o líquido que envolve o bebê desce do útero para o mundo, e o bebê fica suscetível a diversas situações, inclusive ao parto. E um parto prematuro é qualquer parto com menos que 37 semanas de gestação. Todo conhecem pelo menos um caso de um bebê prematuro que conseguiu sobreviver nas incubadoras e toda a tecnologia atual, mas é necessário saber que a chance de não sobreviver é grande. E a chance de morte intra-útero (antes de nascer) também é. Então, quanto mais tempo possível permanecer dentro da barriga da mãe, melhor.

Dito isso, após uma breve conversa com a paciente sobre o que tinha acontecido, percebi que ela estava extremamente tensa, mas ao mesmo tempo, disciplinadamente contida, esperando apenas o momento certo para despejar toda aquela apreensão. Mas, durante o exame físico, quando eu mostrei a ela os batimentos cardíacos do bebê, uma lágrima de alívio escorreu, como um prenúncio de muitas outras lágrimas de angústia que estavam porvir. E confesso que foi meu coração que quase parou naquela hora.

Vi muito líquido na mesa do exame físico, e tive a ideia, antes de chamar um Assistente (“chefe” dos Internos) para ver a paciente, de fazer o Teste do Fenol com aquele líquido. O Teste do Fenol, simplificadamente, é: pingar algumas gotas de um reagente em um algodão no qual você passou lá perto do colo do útero para saber se o líquido em questão é amniótico ou não (ou seja, do bebê), havendo uma mudança de cor no caso de ser positivo. Eis que com apenas uma gota, o lençol da mesa ficou vermelho. Positivo.

Após a Assistente ir examinar, eis o diagnóstico que nós já sabíamos: RPMO (Rotura Prematura de Membranas Ovulares), em outras palavras, bolsa das águas que estourou antes do tempo. E ela já emendou no prognóstico, dizendo que as chances de sobrevivência não eram altas. É melhor ser sincero nessas horas.

E a paciente manteve-se contida durante todo esse processo, mesmo quando recebeu a notícia de que ficaria internada por pelo menos uma semana, que teria que ficar em repouso absoluto e que não havia muito a ser feito, a não ser esperar para ver o que iria acontecer.

Deixei a paciente na mesa e fui preencher as fichas de internação, quando a Assistente me pediu para fazer a Dinâmica Uterina enquanto ela preenchia as fichas para mim. Percebi que ela estava me dando uma grande oportunidade de aprender algo importante naquele último plantão: o que dizer para uma paciente numa hora dessas?

Para examinar a Dinâmica Uterina, basta você colocar a sua mão sobre a barriga da gestante por 10 minutos e contar quantas contrações o útero tem e qual a duração. No caso dela, cada contração seria um risco a mais de algo dar errado. E aquele útero não iria contrair na minha mão, pelo menos não nesse começo de noite. E 10 minutos não passam rápido, ainda mais quando naquele contato da minha mão, mãe e bebê tanta coisa estava acontecendo. Mas eu, enfim, comecei a contar os segundos.

Dinâmica Uterina
Todos esses anos de Faculdade, não lembro ter aprendido algo que pudesse ter me ajudado naquele momento. Claro que não era difícil para mim, e sim para a mãe, que, mesmo com aquela face calma, exalava um desespero que era mais palpável que o útero dela sob a minha mão. E então decidi começar a falar, e, quando dei por mim, ela estava chorando e finalmente liberava todo aquele sofrimento que ela estava sentindo há algumas horas.

Não falei nada demais, antes que me acusem. Mas acho que falei o que ela precisava ouvir, e talvez por isso ela conseguiu soltar aquilo que ela estava brigando para manter dentro de si. Primeiramente, nesses momentos, temos que deixar claro que a culpa não é da gestante. E esse é justamente o primeiro pensamento que elas têm quando acontece algo errado. E foi o que eu tentei dizer, com a minha mão esquentando a barriga dela e nenhuma contração ocorrendo.

Falei também que ela tinha que ser forte e ter paciência, o que parece ser inútil, mas que espero que ela consiga realizar. Mas que era para ela chorar sim, porque o anormal seria não sofrer e ter medo num momento desses. E eis que então sinto algo na minha mão, e aquele nervosismo de estar diante de algo muito ruim subiu direto das pontas dos meus dedos até os fios do meu cabelo.

Mas a surpresa é que não foi uma contração. Foi o bebê mexendo. Na realidade chutando. E chutando forte! Querendo dizer que ainda estava ali e que não iria desistir. Afirmando para a mãe que lutaria até o fim se ela também estivesse disposta a isso.

E, ao dizer para ela que a futura filha (é uma menina!) estava ali se mexendo e que não queria sair tão cedo, o rosto da mãe pareceu mudar pela primeira vez, e eu pude ver nos olhos dela uma determinação obstinada a manter aquela gestação acontecendo o máximo possível. E então ela diz:

Cada dia vai ser uma vitória, não é? Os dias vão virar semanas, mas vamos conseguir!

ObstetríciaE sim, cada dia vai ser uma vitória mesmo. Tanto para ela quanto para mim. Apesar de estarmos em lutas diferentes, entramos em acordo que será um dia de cada vez, um passo atrás do outro, e, por mais que os dias pareçam intermináveis, o próximo estará logo ali, esperando pouco para chegar.

E, debaixo da minha mão, pele, subcutâneo, músculo, útero, aquela vida pulsava mais viva que muitos de nós. Pulsando forte com aquela vontade teimosa de viver. E, posso garantir, nunca tive nada tão importante em minhas mãos como naquela hora.

Anúncios

30 comentários sobre “Obstetrícia – Parte I

  1. Nossa que emocionante, me arrepiei toda com a leitura!
    Fiquei imaginando toda a situação, vc ali nessa situação difícil, a mãe com aquela angústia e o nenê que de repente chuta uau incrível ^^
    Nesses momentos é bom ter além do profissional, um ser humano que tenta entender o sofrimento do próximo, parabéns =)

  2. Todas as emoções transmitidas no texto!! Muito lindo!!!
    A parte da humanização tem que fazer parte na medicina!!
    Fiquei com vontade de saber o fim da historia…rsrs
    O bebê sobreviveu??

    • Obrigado! Eu acredito que Humanização faz parte de cada pessoa, e é muuuuuito difícil ser “humano” (do jeito que as pessoas cobram tanto dos profissionais da saúde hoje) em algumas situações, porque afinal, somos humanos!! Mas enfim, deixo o final para outra história hahaha

  3. Depois que estou seguido o Diário de um estudante de Medicina, tenho a convicção que quero viver histórias parecidas com a sua, salvar vidas, transmitir esperanças para as pessoas. Sei que não é fácil, é uma profissão árdua. Mas valerá apena! Obrigada por cada depoimento, enche os nossos corações de força para não desistir!
    Abraços !

  4. Que legal Deco! O que mais chamou minha atenção foi sua sensibilidade em diferentes momentos desse história. 1° , o desespero da mãe escondido numa face tranquila, vc a olhou! Hoje em dia existe um distanciamento, quando o medico fala “próximo”, ele mal olha no rosto do paciente ( desejo do fundo do meu coração que não seja empolgação de um estudante, e caso seja que nunca te abandone) 2° enxergar como uma oportunidade de aprendizado a assistente ter mandado vc ficar 10 minutos com a mão na barriga da mãe, e através dessa “missão” com palavras certas, faz com que a paciente libere a emoção contida, talvez ela tenha se contido justamente para não “amolar” o doutor com seu sofrimento, mas vc se revelou humano então ela pode “relaxar” dentro do possível…. Amo ler suas postagens, seu amor pela profissão me trás certa nostalgia, porque não fiz medicina?! rs Grande abraço.

    • Olá, Fran!
      Obrigado! Bom, esse distanciamento é muito complicado, porque tem muitos fatores envolvidos, sendo o principal o Sistema de Saúde em que estamos inseridos.
      Ah, no internato tudo serve pra gente aprender, porque senão a gente enlouquece hahaha
      Abraços

  5. Gostei muito do relato. Caí no seu blog procurando uma outra informação. Acho fantástico os relatos, também é uma maneira de se acompanhar a mudança de visão de mundo do estudante para o profissional. Mas, há algo que eu gostaria de entender. O que é essa divisão ou hierarquia de atendente, interno, residente, assistente etc?

    • Olá Priscilla.
      Bom, primeiro vem os alunos de 1o a 4o ano, que são alunos normais. Os do quinto e sexto são internos, que basicamente são estagiários. O residente é o médico já formado que ingresso no Programa de Residência para obter a especialização. Acima dos residentes estão os Preceptores, que supervisionam os internos e os residentes. Os assistentes são médicos já especialistas que supervisionam a todos, atendem, operam, etc. etc.! Na parte da Assistência Médica são só esses. Aí na parte administrativa e de Ensino temos os Professores e os Professores Titulares.
      Enfim, espero que você tenha entendido! (:

  6. Depois desse depoimento, testemunho! Só tive a certeza do que eu quero ser… Futura Medica Obstetra. Parabéns e me emocionei ao ler.

  7. Estou tentando entrar na USP, para cursar medicina. Seus artigos só me deixam mais fascinado pela vida, profissão e dia a dia!!
    Agora mais que nunca vou com toda minhas forças e vou passar e ser um Cirurgião brilhante !!
    Obrigado por ter a iniciativa de contar as coisas fascinantes que acontecem na sua vida!! 😀

  8. Nossa André, cara tu escreve de uma forma fascinante. Estava precisando de um blog pra ler, pra me ajudar a desenvolver ideias, mas só sabia de blog de fofoca ou cortes de pulsos Lispector. E do nada achei o seu blog, já nem lembro onde.
    Voltando aqui todos os dias. Boa sorte cara.

    • Henrique, obrigado!
      Espero que ajude a desenvolver boas ideias hahaha as vezes aqui fica meio de cortar os pulsos, mas nem sempre!
      Abraços

  9. Nossa!

    Foi realmente surpreendente a forma que você descreveu a situação em que se encontrava foi realmente muito boa.

    Ganhou mais uma acompanhante pro blog!

    Parabéns pela conquista e pelo blog!

  10. Obrigado por mais um post fantástico, André! Você sabe me dizer onde eu encontro quais pesquisas estão sendo desenvolvidas na fmusp atualmente? Procurei na internet mas tá difícil de encontrar. Abç!

    • Olá, Nicholas! Não sei te dizer 😦
      As pesquisas geralmente são publicadas em revistas científicas, sejam nacionais ou internacionais, mas não sei onde tem uma lista com todas elas!

    • Nicholas, existe a biblioteca de Saúde Pública e ela é aberta pra comunidade. Bibliotecas costumam assinar bases de textos completos, lá dentro da biblioteca você pode acessá-las. Dá pra pesquisar por área, autor, assunto, instituição. Caso tiver dificuldades, peça ajuda para a bibliotecária de referência (é pra isso que ela serve srsrrs). Fora isso fica difícil acessar certos artigos, essas bases são caras, ainda mais na área de saúde e tecnologia.

  11. Texto emocionante, parabéns! Seu talento para narrar e contagiar ao leitor é incrível e, tais textos, fazem parte do compêndio que me mantém firme para permanecer buscando meu sonho de medicina. Então, muito obrigado!

  12. A cada postagem sua que vejo, só me fazem ter mais certeza do que quero e vou exercer!!! A medicina é realmente ”fascinante”.

  13. MEUS PARABÉNS
    Você me emocionou muito com essa experiência, acho que isso deve ser o mais gratificante na profissão… meu sonho é ser médico…espero poder realizá-lo no próximo ano…
    Seu blog me ajudou bastante a descobrir um lado da faculdade de medicina que é meio ocultado por alguns…parabéns pela iniciativa… sempre que puder escrever mais, faça isso porque vc estará ajudando muitas pessoas, inclusive eu …

    Abraços

  14. Emocionante!
    Tenho 13 anos, e meu sonho é ser Médica na área da Obstetrícia. Lendo e pensando em toda a situação, me imaginei na situação, Kk. É importante ter médicos que sabem além do que aprenderam na faculdade. Parabéns.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s