Pronto-Socorro do HC – 6º Ano

Mudança de endereço: pessoas, mudei o endereço do blog! A partir de agora será: https://registromedico.wordpress.com. Todo o conteúdo desse aqui está lá também! Em breve esse será desativado!


Preparem-se que esse post será longo e cansativo. Tanto quanto foi esse estágio nos pronto-socorros do HC. Foram os 66 dias mais intensos da faculdade, sem sombra de dúvidas. Dias em que dormi muito pouco e muito mal, quase não vi a minha família e meus amigos, passei mais tempo no hospital do que fora dele, me esgotei achando que estava chegando no meu limite. Mas foram dias que descobri que meu limite é muito maior do que eu achava, que aproveitei cada segunda dentro do hospital, que recebi apoio da minha família e amigos e que aprendi a valorizar cada minuto de descanso que aparece.

Escutamos desde os primeiros dias de faculdade que ocorre uma transformação quase que milagrosa durante o internato. É aquele momento em que você deixa de ser um aluno inseguro e passa a agir como um médico que tem que ter confiança nos seus conhecimentos e atos. Acho que o mais próximo disso é esse estágio.

E, antes que me xinguem, respondo dia e noite comentários e emails perguntando sobre tempo livre e se é possível ter vida durante a faculdade de medicina. Pelo pouco que escrevi até agora, vocês devem estar imaginando que a resposta é não. Mas não é verdade! Foram só 2 meses que a gente tem uma imersão nesse tipo de vida, e, pra falar bem a verdade, eu não vivi muito porque preferia dormir no tempo livre hahaha

Mas vamos lá que temos 4 tópicos para falar, pois esse estágio de pronto-socorro é dividido em 4 partes:

1 – Pronto-Socorro de Cirurgia (PSC)

Esse foi o primeiro e, sem dúvidas, o mais cansativo. O PSC é o sonho ou pesadelo de muitos internos, podendo ser os dois ao mesmo tempo. Desde o início da faculdade eu tinha um fascínio por esse lugar e achava que ali seria o local que eu decidiria minha especialidade do futuro. Bom, posso adiantar que eu me decidi!

O PSC é dividido em três partes, primordialmente: a porta, que é o local que atendemos os pacientes que chegam da rua com alguma doença cirúrgica (leia abaixo); a sala de trauma, que é onde atendemos pacientes que sofreram acidentes e vão ao hospital de ambulância ou de Águia (o helicóptero da Polícia Militar); e o centro cirúrgico, que é onde vamos para participar das cirurgias de pacientes da porta ou da sala de trauma.

(Observação: uma doença cirúrgica, simplificadamente, é uma doença que precisa, para o seu tratamento, de uma cirurgia, seja de emergência ou agendada. Então vai desde apendicite, pedra na vesícula ou nos rins até tiro no peito, facada na barriga e cortes e mais cortes para suturar)

A porta é terrível. Independente de qual pronto-socorro você esteja, a porta é triste. O HC, por ser um hospital referenciado, deveria, no mundo ideal, atender casos graves. No entanto, por conta da má estruturação do sistema de saúde e da desinformação da população, as pessoas vão lá por dor no dedinho, pedra na vesícula que tem cirurgia marcada só pra daqui 10 meses e quer fazer antes, caiu e bateu a cabeça há 5 dias e decide ir pro PS porque é sexta ou segunda de manhã (conveniente, não?). Enfim, não é fácil.

Mas, ao mesmo tempo, diagnosticar uma apendicite ou um cisto roto de ovário e indicar cirurgia de emergência, aliviar as dores de cólica renal e, eventualmente, ver algo mais grave como rotura de aneurisma ou reencontrar alguém que você viu meses atrás com isso e que sobreviveu (leia aqui!!) é muito gratificante.

A Sala de Trauma é a parte mais legal do estágio, sem dúvidas. Quer dizer, pra mim que gosta de emergência e de tragédias. Algumas pessoas não gostam muito e essa é aquela parte que muito temem: sangue e coisas nojentas e gente faltando pedaços. Mas, posso afirmar que ninguém deixa de atender e ajudar a pessoa porque fica com nojo ou medo! A equipe toda fica focada em fazer o melhor atendimento e salvar a pessoa, minimizando os danos.

E mais legal ainda é quando chega paciente de Águia, porque em geral são casos mais graves.

Águia chegando!
Águia chegando!

Existe um protocolo internacional para fazer o atendimento desses pacientes que sofreram acidentes e no HC ele é muito bem aplicado. A gente aprende muito bem a manejar um paciente crítico e estabilizá-lo ou pelo menos mandá-lo vivo para a cirurgia.

Algumas vezes a gente tem que correr pelo hospital para levar exames para o laboratório ou para buscar bolsas de sangue para fazer transfusão em pacientes que perderam muito sangue.

Momentos Grey's Anatomy
Momentos Grey’s Anatomy

A terceira parte do estágio é o centro cirúrgico. Não tem muito a acrescentar sobre isso porque é exatamente igual aos outros estágios.

De volta ao CC
De volta ao CC

2 – Pronto-Socorro de Cardiologia – InCor

Esse estágio é um divisor de água nas nossas vidas de internos. Durante a Clínica Médica, nós fingimos que aprendemos a ler um eletrocardiograma (aquelas linhas que não fazem sentido nenhum a uma primeira vista). Mas, durante o estágio do InCor, a gente aprende muito a ler um eletro e cuidar de pacientes em emergências/urgências cardiológicas.

Mistérios da Medicina.
Mistérios da Medicina.

Esse estágio foi muito bom! Aprendi milhares de coisas novas, além de ler ECG, e também tive oportunidade de passar um catéter venoso central jugular com ultrassom sozinho! (Talvez a maior conquista do internato hahaha). Não sei se já falei, mas passar catéter é uma das coisas mais legais que o interno quer fazer durante o internato, porque certamente ninguém quer fazer isso depois de formados, visto que se der algo errado é catastrófico. Mas, como a medicina gosta de nos pregar peças, também tivemos que drenar ascites, o que é extremamente tedioso.

Produzindo cerveja artesanal. Mentira, é ascite.
Produzindo cerveja artesanal. Mentira, é ascite.

Mas, a melhor parte do estágio é que nós tínhamos acesso a uma máquina da Nespresso gratuitamente, e sou eternamente grato aos mestres Zerbini e Decourt por terem idealizado o InCor!

Faz a vida valer a pena.
Faz a vida valer a pena.

Brincadeiras a parte, presenciei um dos eventos mais interessantes do meu internato. Em geral a gente acha que a morte é algo horrível e feia, triste e avassaladora. Mas algumas vezes ela vem tranquilamente, como se tivesse hora marcada para chegar. Foi o que aconteceu com um paciente que chegou no começo de um plantão noturno. Ele tinha uma insuficiência cardíaca grave e intratável. Já sabia o que iria acontecer, e a família levou ao hospital porque ele estava muito desconfortável em casa. Foram feitas todas as medidas para deixá-lo confortável e a vida foi se esvaindo, pouco a pouco, e acompanhei do começo ao fim, até o coração, já cansado, parar de bater.

Linha reta: assistolia, parada cardíaca. Descanso e paz.
Linha reta: assistolia, parada cardíaca. Descanso e paz.

3 – Pronto-Socorro de Clínica Médica (PSM)

Pensem no inferno na terra. Agora imaginem algo pior. É isso. Tá, nem tanto. Mas quase isso. Foi horrível, horrível, horrível. Mas aprendi muito lá, apesar dos pesares. E foi nesse lugar que eu percebi que não vou aguentar trabalhar em pronto-socorro por muito tempo hahaha talvez pela estafa de já ter passado por dois estágios puxados, comecei esse estágio já cansado e um pouco sem paciência para enfrentar, mais uma vez, trocentas mil pessoas atrás de atestados.

Porém, como já disse antes, a Medicina gosta de nos pregar peças, atendi uma paciente de uns trinta e poucos anos com uma síndrome genética que a deixava infantilizada, obesa e com retardo no desenvolvimento neurológico. Ela veio com a mãe que empurrava sua cadeira de rodas e gritava muito no corredor, aparentemente de dor. Após aplicar toda a minha paciência que acumulei nesses sete anos, consegui fazê-la deixar-me examiná-la (quanta ênclise, nem sei se tá certo haha). Depois de muito papo, fiz o diagnóstico de uma infecção de pele na perna, passei o tratamento pra ela e dei orientações. No final ela estava muito feliz e me deu um presente e um abraço!! E parou de gritar também.

Primeiro presente que ganhei no PS HAHAHA
Primeiro presente que ganhei no PS HAHAHA

O estágio no PSM era dividido em porta e Sala de Emergência. Ficar na porta era um martírio, como vocês já entenderam, e a gente ficava rezando para que não chegassem mais pacientes para podermos respirar um pouco. Mas, sempre caía uma ficha nova e lá íamos nós para o consultório.

Pior lugar da terra: parede das fichas.
Pior lugar da terra: parede das fichas.
PSM4
“Ajude a reduzir o tempo de espera no Pronto Socorro do H.C. Procure sempre o serviço de saúde mais próximo de sua residência”. Frase que mais repeti nesse estágio hahaha

Bom, mas nem tudo foi ruim e chato! A Sala de Emergência foi uma das coisas mais legais do internato até hoje! Infelizmente a gente não passa muitos dias lá, porque somos em muitos internos e todos têm que passar por lá igualmente. E também dependia muito da sorte do interno (e azar do residente!) aparecerem muitos pacientes graves lá para a gente ter coisas para fazer e aprender. Foi lá que eu entubei uma pessoa pela primeira vez. E fiz mais vezes! Passei catéter central (de novo!) e reanimei paciente com parada cardíaca. Dei notícia de morte para familiares e de que a reanimação tinha dado certo e o coração tinha voltado a bater.

Carrinho de emergência <3
Carrinho de emergência ❤
A arte de colher sangue <3
A arte de colher sangue ❤

Foi legal, no fim das contas! Acho que deu para entender o quanto eu gosto de emergência hahaha

4 – Pronto-Socoro de Neurologia (PSN)

Saindo agora do campo da Medicina e indo para outro totalmente diferente, entramos no mundo da Neurologia hahaha há quem diga que para ser Neurologista basta não bater bem da cabeça, posso dizer que realmente é uma especialidade para poucos.

Nosso estágio na neurologia era mais observacional, apesar de atendermos alguns pacientes. O PS da Neurologia não tem porta (amém!!), então recebíamos os pacientes encaminhados dos outros pronto-socorros. E em geral eram pacientes com casos muito estranhos e complexos, então nada muito didáticos para a nossa vida de médico generalista.

Claro que a gente aprendeu, finalmente, a usar bem aqueles apetrechos neurológicos, e até que era divertido fazer o exame neurológico.

Aposentei o estetoscópio
Aposentei o estetoscópio

Mas também temos emergências na Neurologia! Muitas pessoas não sabem, mas quando uma pessoa tem um AVC, o mais importante é reconhecer rapidamente os sinais e sintomas e levá-la ao hospital o mais precocemente possível. É possível fazer um tratamento para AVC que diminui bastante as sequelas, que é chamado de Trombólise. Esse tratamento só pode ocorrer dentro de pouca horas, então é muito importante mesmo a rapidez na suspeita de AVC e no transporte ao hospital!

Tempo de trombóliseeeee!
Tempo de trombóliseeeee!

É isso aí! Depois de 66 dias intensos e muitos plantões, sobrevivi e aprendi muita coisa! O PS do HC é um local singular, e ninguém que passe por ele, depois de tantas e tantas gerações formadas lá, saí a mesma pessoa.

Até que deu saudade agora...
Até que deu saudade agora…

E agora falta muito pouco para acabar! Postarei mais uma vez antes do fim da graduação, que será dia 01/11, e falarei dos dois últimos estágios. E depois veremos o que vai acontecer! Tá acabando!!

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9 comentários sobre “Pronto-Socorro do HC – 6º Ano

  1. Você acabando e eu começando, ou melhor, terminando o primeiro ano haha. Deco, você foi a inspiração de muitos no universo bloguistico (eu) e de quem quer/quis prestar medicina. Agora que esta acabando, ou não, obrigado por esses sete anos, e que você continue por muitos outros, por favor! Abraços.

    • Olá! Muito obrigado pelo comentário 🙂
      Fico contente em saber que ajudei de alguma forma! Espero que sua trajetória pela Medicina traga tantas alegrias como trouxe para mim! Aproveite tudo porque, apesar de eu reclamar todo santo dia hahaha, acaba rápido!
      Quem sabe eu continuarei escrevendo!
      Abraços!

  2. Sacanagem isso, fiquei esperando pra ver qual seria a sua suposta especialidade hahaha.
    Ótimo texto, pena (pra nós é claro) que tá acabando!

  3. Ótimo Blog amigo,ele me influenciou a tomar uma vertente importante em minha vida,quero fazer medicina,tenho 18 anos,mas falta-me estudo (Muito pelo visto),mas tudo que é bom é difícil ,não é mesmo ?

    • Olá. Obrigado pelo comentário! Bom, precisa estudar bastante mesmo. Mas quando a gente quer, a gente consegue! Então força aí e boa sorte 🙂 Espero que dê tudo certo!

  4. Ótimo, é o que posso dizer sobre o blog e maravilhosa é a sensação de alguém concluindo o curso.
    Acho que sou louca porque estou finalizando um curso de Direito o qual achava que queria, porém descobrí que medicina é o que realmente desejo. Isso seria perfeito se tivesse alguns anos a menos, hoje estou com 39, isso mesmo, é de assustar. Não sei se é certo ou errado, mas vou finalizar o curso e encarar o vestibular novamente. O que vou encontrar ou se vou conseguir não sei, mas é o que quero.
    Parabéns por sua luta diária.

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